Contos
Oeste da Europa

O Sapo Envergonhado

level 3
Dificuldade ***
Temas : Viver juntos

Era uma vez um sapo que vivia no seu charco muito feliz e muito tranquilo. Gostava especialmente de um nenúfar, onde passava o dia apanhar sol e a comer moscas.
Por vezes, partilhava o nenúfar com uma fêmea. Coaxava a tarde toda para ela e oferecia-lhe as moscas mais apetitosas que conseguia caçar. A fêmea ficava encantada com aquela atitude. Era uma bela vida.
Mas um dia a paz terminou. Perto do charco, vivia uma menina que se chamava Maria. A madrasta fazia-lhe a vida negra. Quando o pai, saía para o monte para trabalhar e fazer carvão, a madrasta obrigava a trabalhar arduamente. Era ela que cozinhava, arrumava a casa, alimentava os animais e cavava a horta. Passava o dia a trabalhar enquanto a madrasta se sentava à lareira a bordar. O pior nem era o trabalho mas sim a forma como a madrasta a tratava. Passava o dia a chamar por ela, estava sempre a dizer que a menina era uma desleixada e uma preguiçosa e que não servia para nada. Chegava mesmo a bater-lhe com um sapato.
A Maria andava desgostosa e o pai, quando chegava a casa perguntava-lhe o que se passava. Mas ela, que era uma boa menina, não queria dizer mal da madrasta e por isso encolhia os ombros e ficava em silêncio a arrumar a loiça do jantar.
-O que tu tens de arranjar é um príncipe, dizia-lhe o pai, tirava-nos a todos da pobreza em que vivemos e tornavas-te numa princesa, talvez rainha.
A madrasta ria-se e exclamava:
– Ela rainha!!!
E ria de tal modo que a Maria estava à espera de a ver transformar-se em bruxa e sair pela janela em cima de uma vassoura. Mas isso nunca aconteceu e a Maria olhava para a sua vida e pensava que, a menos que fizesse alguma coisa, seria cada vez pior. Começou então a imaginar que um príncipe, montado num belo cavalo branco, se haveria de perder na floresta e bateria à porta para pedir ajuda. Ficariam apaixonados e iriam viver juntos para o palácio.
Entretanto lembrou-se das histórias que a mãe lhe contava sobre príncipes transformados em sapos por bruxas. Quem sabe se, entre os sapos que por aí habitavam os charcos, não haveria um que era um verdadeiro príncipe!
Um dia à tarde, depois de arrumar a loiça, disse à madrasta que ia regar a horta. Pegou no cântaro de barro e dirigiu-se ao charco onde costumava ir buscar água. Ao aproximar-se do charco, viu aquele sapo em cima do nenúfar. Ele estava quase apanhar uma mosca e ficou muito aborrecido com a presença da menina, pois o inseto fugiu. O sapo fugiu e foi caçar moscas para outro lado.
A Maria passou a ir ao charco sempre que podia e, para evitar assustar a bicharada, aproximava-se com pezinhos de lã. Sentava-se numa pedra e ficava a apreciar o sapo. Havia outros sapos, mas aquele, pelo seu tamanho, pela sua perícia e pelo coaxar afinado aquele chamava mais a atenção. Ela acabou mesmo por se convencer de ele era realmente um príncipe encantado.
A Maria estava convencida de que aquele sapo era um príncipe encantado que começou a tentar apanhá-lo para lhe dar um beijo. O sapo passou a viver em constante sobressalto, com o medo de ser apanhado e acabar na panela pois não percebia o que ela queria.
De noite, a menina sonhava com o príncipe sapo e de dia começou a não realizar todas as suas tarefas, a ponto de a madrasta passar a trata-la ainda pior. Dizia que, se ela assim continuasse, haveria de dá-la em casamento ao velho corcunda que vivia no bosque, bem longe dali. Mas ela estava tão convencida que tinha encontrado o seu príncipe que já não tinha medo das ameaças.
O que realmente a preocupava era arranjar forma de apanhar o sapo para lhe dar um beijo e quebrar o feitiço. Mas ele era demasiado esquivo e, quando a Maria estava quase a apanhá-lo, mergulhava bem no fundo. O sapo, por causa disso, emagreceu e pensou até mudar-se para outro charco, pois naquele já não havia tranquilidade. Todos os sapos estavam preocupados.
Como os protestos de avolumavam, decidiram reunir em assembleia para discutir e decidir o que fazer. Um dos sapos mais velhos sugeriu que talvez a menina pensasse que o sapo era um príncipe encantado. E deu-lhe o conselho que se deixasse apanhar e beijar por ela. Quando a menina visse que ele não era mais do que um simples batráquio, haveria de deixá-lo em paz.
O sapo, apesar de algum receio, deixou-se apanhar no dia seguinte. Sentiu a mão gretada e áspera da menina sobre o dorso liso e pegajoso e fechou os olhos, muito nervoso.
Que querido e fofinho que ele é! Exclamou a menina.
O sapo encolheu-se com medo. Estava pronto. Só esperava que não fosse muito doloroso.
Não sejas envergonhado – disse a Maria – Um sapo tão belo como tu não precisa de corar diante uma menina.
O sapo gostaria de explicar àquela menina que não era vergonha o que sentia, mas sim medo.
A Maria acariciou-o mais uma vez, aproximou o sapo dos lábios e deu-lhe um beijo.
Nesse instante, apareceu um lindo rapaz em cima de um cavalo e perguntou:
– Que faz menina com esse sapo na mão? Não me diga que o vai beijar!
– Já beijei! – Disse ela.
-E o que aconteceu? Quis saber o rapaz.
– Apareceu-me um príncipe.
O rapaz riu-se, ela riu-se também e foi amor á primeira vista.
A Maria voltou a colocar o sapo no charco. O rapaz acompanhou a menina a casa e prometeu visitá-la sempre que podia. Dois anos depois, casaram e foram muito felizes. Ele não era um príncipe verdadeiro, filho de um rei e de rainha; era filho de um mercador. Mas para a Maria era príncipe e isso é que importa.
Quanto ao sapo, voltou a fazer o que mais gostava. Ficar contente por saber que afinal era verdadeiramente um sapo.