Contos
Mundo Mediterrâneo

O macaco do rabo cortado

level 1
Dificuldade *
Temas : Animais

Sumário: A divertida história do macaco do rabo cortado que anda de um lado para o outro a criar confusões. Nunca satisfeito com as escolhas que fazia, depois de mandar cortar o rabo, quis recuperá-lo, mas não pôde, e levou algo em troca. Porque voltar atrás nem sempre é possível, foi tirando coisas, dando coisas e tirando coisas…

Havia um macaco que tinha um rabo muito comprido e um dia passou em frente de uma escola e os meninos começaram a fazer troça do macaco a dizer:

– Olha o macaco de rabo comprido, olha o macaco de rabo comprido!

E ele pensou:

– Ah, isto não poder ser.

Passou por junto de um barbeiro e disse ao barbeiro:

– Ó senhor barbeiro, corte-me o rabo.

E o barbeiro cortou o rabo. Ele todo vaidoso passa em frente da escola e pensou:

– Agora, não gozam comigo!

E os meninos da escola começaram a troçar:

– Olha o macaco de rabo cortado, olha o macaco de rabo cortado!

– Bem, bom, isto assim não pode ser.

Voltou ao barbeiro e disse:

– Ó senhor barbeiro, faz favor de me devolver o meu rabo.

E ele disse:

– Ó macaco, eu já deitei o teu rabo fora.

– Ah, não me dás o rabo? Então levo-lhe aqui uma navalha.

Tirou-lhe uma navalha. Foi andando, andando, andando, passou junto duma casa onde estava uma mulher a arranjar peixe. Mas a mulher não tinha faca para arranjar o peixe. E disse:

– Então a senhora está arranjando aí o peixe?

– Ó macaco, pois não vês? Tenho de estar só com os dedos, com as mãos, porque não tenho faca…

– Tome lá esta navalha!

– Então está bem!

Mas o macaco começou a andar e começou:

– Aquela navalha era tão jeitosa e eu fui deixar a navalha para a mulher…

Tenho que lá ir buscá-la.

Então, voltou atrás.

– Eu quero aqui a minha navalha!

– Ó senhor macaco, quando fui despejar o alguidar da água a navalha foi pelo cano abaixo.

– Então, vou-lhe roubar uma sardinha!

E lá levou a sardinha. Foi andando, andando, andando, foi para o campo, encontrou um moleiro. Estava lá um moleiro e o moleiro estava a comer pão às secas.

– Ó senhor, então está a comer pão sem nada?

– Ó senhor macaco, então não vê? Estou aqui tão longe, não trouxe nada, só estou comendo o pão que acabei de cozer…

– Então tome lá esta sardinha.

O macaco deu a sardinha. O moleiro ficou todo contente, de comer uma sardinha entalada no pão. E o macaco foi andando. Mais tarde deu-lhe fome e disse:

– Então, mas eu não vou buscar a minha sardinha?

Está-se a ver que o macaco era inconstante…

Voltou e disse:

– Ó senhor moleiro, faz favor quero a minha sardinha!

E ele:

– Ah, homem, então eu já comi a sardinha, nem a espinha sobrou!

– Ah, não me dá a sardinha? Levo-lhe um saco de farinha!

Pega no saco de farinha, põe às costas, vai andando. Passa por uma escola onde estavam umas meninas a brincar no recreio, viu a professora e disse:

– Ó senhora professora, trago aqui um saco de farinha. Quer ir fazer uns bolinhos para as suas alunas?

– Olhe, boa ideia!

E a professora levou o saco de farinha e com alegria as crianças todas lá foram preparar os bolinhos. Ora, fizeram uma festa, comeram os bolos, mas às tantas o macaco voltou atrás.

– Faz favor, quero aqui o meu saco de farinha.

– Olhe, fiz uns bolinhos e as meninas comeram todos, não tenho nenhum.

– Então, levo-lhe uma menina.

E lá foi, de mão dada com a menina. Passou adiante, encontrou uma mulher a lavar a roupa.

– Então está lavando aí com tanta roupa e não tem ninguém para a ajudar? Fica esta menina para a ajudar.

A lavadeira conheceu a menina e disse:

– Ah, está bem, senhor macaco. Fica aqui a menina para me ajudar.

E disse:

– Olha, tu ficas aqui ao pé de mim, que eu depois levo-te à tua casa, que eu conheço muito bem a tua mãe. A menina ficou e a lavadeira, assim que se despachou, foi levar a menina a casa.

Nisto, o macaco volta e diz:

– Eu quero aqui outra vez a menina!

E ela disse assim:

– Ah, senhor macaco, a menina já foi para casa e eu não tenho aqui a menina.

– Então levo-lhe uma camisa!

Lá roubou uma camisa e foi andando. Encontrou um homem a tocar viola, um homem com uma camisa muito suja, muito velha, e disse:

– Ó homem, essa camisa não está capaz para andar aí. Tome lá esta nova.

Deu a camisa ao homem da viola. Mais tarde quis vir buscar a camisa. O homem da viola já não lhe deu a camisa. Ele roubou-lhe a viola, saltou para cima do telhado e começou o macaco a cantar:

Do rabo fiz navalha,

De navalha fiz sardinha,

De sardinha fiz farinha,

De farinha fiz menina,

De menina fiz camisa,

De camisa fiz viola,

Trum tum tum, que foi pelos telhados fora,

Trum tum tum, que foi pelos telhados fora.

E lá vai ele, cantando e rindo, pelos telhados fora.

MARQUES, J.J. Dias, “O macaco do rabo cortado”, O conto tradicional português no séc XXI, Lisboa, IELT, 2019