GUIA PRÁTICO
Contar contos para dominar a arte da fala

Introdução

Boas habilidades de fala podem ser ensinadas, mas como? Através da prática, com histórias.

Proficiência oral

A predominância da cultura escrita sobre a cultura oral continua a prevalecer em muitos países europeus. A língua oral é considerada sobretudo como uma competência pré-existente e como um pré-requisito para o início do percurso escolar da criança. A escrita, por outro lado, é o resultado de um processo de aprendizagem estruturado em ambiente escolar. A comunicação oral é relegada para segundo plano, como se a mesma fosse simplesmente um meio de transmitir informação ou destinada, em última análise, a ser escrita.

No entanto, as habilidades orais estão no centro de todas as interações profissionais chave, quer para a defesa de ideias, quer para convencer alguém (entrevistas de emprego, vendas, política…), quer ainda como forma de interação num grupo (debate, cidadania). Numa sociedade baseada na comunicação, a necessidade de autoexpressão está a crescer.

A proficiência oral é a base de toda a aprendizagem: antes de aprender a ler e a escrever, as crianças devem aprender a falar. A distância entre as crianças que beneficiaram de um ambiente social, que favoreceu conversas ricas e complexas durante os primeiros anos de vida, e as crianças de origens menos privilegiadas é imediatamente percetível a partir das suas primeiras experiências de aprendizagem. Longe de ser ultrapassado, este fosso expande-se ainda mais ao longo do seu percurso escolar e, mais tarde, tende a ter fortes repercussões tanto na sua vida profissional como na sua vida social.

Antes de aprender a ler e a escrever,
a criança deverá aprender a falar!

Oralidade na escola

A noção de oralidade na escola é difícil de compreender, devido à variedade de significados que ela implica. Em sentido amplo, pode aludir a uma espécie de ensino centrado no diálogo aluno/professor. Mais especificamente, a palavra "oral" também pode referir-se a exames orais que são principalmente  concebidos para testar os conhecimentos dos alunos. Mas nenhum deles se destina especificamente ao desenvolvimento das competências orais. Embora os professores façam frequentemente uso de apresentações e leituras orais, raramente consideram a oralidade em si como um foco principal de trabalho.

No entanto, existem situações de ensino que visam essencialmente desenvolver a comunicação oral (aprender a recitar textos, a debater, etc.) O projeto Seeds of Tellers foi concebido para este tipo de situações.

Três pontos-chave estiveram na base da conceção do Projeto

Um método diferente

Do ponto de vista pedagógico, o ensino da comunicação oral não pode ser feito de acordo com um quadro tradicional de cursos (lições a serem aprendidas…) como se fosse um conhecimento académico. De facto, a noção de comunicação oral refere-se a um conjunto de competências cujo domínio se enraíza na prática, através de um processo de repetição que permite a aprendizagem. O objetivo deste projeto é permitir às crianças contarem histórias com as suas próprias palavras, sem terem qualquer apoio textual. Do ponto de vista didático, a avaliação do desempenho oral exige atenção sobre um novo conjunto de competências que não podem ser diretamente derivadas das utilizadas para a análise textual (gramática, sintaxe, etc.). 

Literatura oral

O Projeto “Seeds of Tellers” utiliza material fundamentalmente oral capaz de transmitir um conteúdo variado, estruturado e universal. É por esta razão que optamos por explorar contos e outras histórias derivadas de tradições orais (desde rimas infantis a mitos e lendas). Os contos orais representam uma das formas mais antigas e mais universalmente partilhadas. Eles representam os fundamentos centrais das nossas sociedades e o cimento das nossas culturas.

A criança no coração do projeto

A oralidade não é apenas vocabulário e gramática. Dar-lhe um lugar na educação das crianças permite que a sua imaginação se desenvolva e floresça, enquanto elas criam as suas próprias imagens mentais; as suas mentes são estimuladas e as suas competências linguísticas e habilidades são enriquecidas pelo desejo de explorar e descobrir as diferentes formas de linguagem (começando por ouvir, depois falar, ler e escrever). Permite a estruturação do pensamento, a consciência do indivíduo enquanto ser social e o desenvolvimento de uma visão pessoal do mundo. A linguagem oral está associada a todo um espectro de competências que são utilizadas para o desenvolvimento intelectual e emocional da criança: o controlo sobre o corpo e as emoções, a construção da confiança, a imaginação, o desenvolvimento da memória, o raciocínio lógico, a empatia, a interação e a comunicação com os outros… O desenvolvimento destas competências é também de grande benefício para as crianças com dificuldades específicas de aprendizagem, que são parte integrante deste projeto.

As histórias permitem-nos
aprender sem ter consciência disso

OBJECTIVOS E METAS
— «Seeds of Tellers» é um Projeto que pretende defender esta visão de oralidade e o papel fundamental dos contos no desenvolvimento desta competência.
Optamos por apresentar conteúdos destinados a crianças dos 5 aos 11 anos, porque estes são os anos cruciais para a aprendizagem de competências fundamentais e para a construção da identidade da criança e das suas relações com os outros.

Constatações

A situação na União Europeia

E xiste um interesse crescente pela comunicação oral nas escolas de alguns países europeus. Em França, por exemplo, a «grande oral» do bacharelato será introduzida em 2021… Antes disso, os alunos terão de aprender a falar, expor os seus conhecimentos e defender as suas ideias em público. Além disso, os concursos de eloquência florescem e a retórica é um tema cada vez mais popular… Em suma, a expressão oral está de volta aos holofotes.

A escola não ensina a arte de falar em público

O currículo escolar francês sublinha a importância da «língua oral como meio de expressão e comunicação». O programa de Educação Nacional, em 2018, para o ciclo 2 (6 a 8 anos), afirma que «o professor assegura a pertinência e a qualidade da língua oral dos alunos em todas as ocasiões durante o ciclo», sem, no entanto, indicar um método de ensino preciso. A aprendizagem de textos «de cor» é um método comum: pedir aos alunos que recitem um texto ou poema; também as apresentações orais são frequentemente preparadas como textos escritos para serem memorizados. Os exames orais são preparados de forma semelhante… Existem nos documentos oficiais, referências à comunicação oral, contudo, de acordo com as pesquisas realizadas, o tempo médio de comunicação oral semanal de um estudante é de poucos segundos!

Não se nasce um orador, tornamo-nos um!

Tendemos a acreditar que alguns nascem comunicadores com um carisma natural, enquanto que outros parecem tímidos e pouco comunicativos. No entanto, falar em público de modo confiante e habilidoso está ao alcance de todos. Contar histórias ensina técnicas de retórica e eloquência, ao mesmo tempo que oferece oportunidades para que as crianças desenvolvam a sua autoconfiança, a sua imaginação, assim como habilidades de escuta ativa e de comunicação.

PESQUISA

Uma pesquisa de 2011, com alunos franceses do 6º ano (11 anos) que participaram regularmente em oficinas de contos, revelou que 90% dos alunos tinham contado histórias, em sala de aula ou em casa, que 40% tinham lido mais de dez livros no ano (95% leram mais de dois) e que mais de 80% relataram ter feito progressos nos exercícios escritos. Além disso, enquanto 66% dos alunos disseram não ter interesse em ler quando entraram na escola, mais de 77% tinham desenvolvido um gosto por ela até o final do ano.

Promover oportunidades de discurso oral

I sto pode parecer óbvio, mas para que as crianças falem, deve ser-lhes dada a oportunidade de falar, e as oportunidades de falar devem ser promovidas. É por isso que este método é diferente do que é normalmente praticado nas escolas e pode ser surpreendente: aqui, sem ser o recitar de cor, elas têm o direito de falar e têm o direito de cometer erros! O objetivo é encorajar a criança a falar e dar-lhe o enquadramento do tema em que o pode fazer. Para isso, é necessário criar uma atmosfera de escuta ativa. Porque a capacidade de falar depende de como a criança é escutada, devemos criar as condições que permitam à criança assumir riscos e enfrentar o desafio de falar em público, para que ela possa sentir o prazer e o orgulho de ver os seus esforços serem compensados.

Para isso, a criança deverá ter o direito de tentar tantas vezes quanto for necessário, de uma sessão para a outra. Eles entenderão que é normal experimentar. Os erros aqui têm um valor construtivo. Da mesma forma, a repetição não é negativa de forma alguma. (São necessárias cerca de 2000 tentativas mal sucedidas para que um bebé comece realmente a andar!) As histórias serão transmitidas e praticadas exclusivamente oralmente, sem recorrer ao apoio de um texto escrito. Isto permitirá às crianças evitar qualquer dificuldade relacionada com a leitura e a compreensão do texto e evitar recitá-lo de cor.

Limitando a abordagem psicopedagógica

A riqueza do conteúdo simbólico dos contos é tal que eles se prestam naturalmente à análise e não se limitam a uma única interpretação. Estes aspetos podem ser de interesse para o professor, mas não é necessário conhecê-los para contar uma história. Os contos são histórias com significados profundos e escondidos, imagens simbólicas que refletem os problemas que enfrentamos desde tenra idade, e é bom deixar que cada um os apreenda à sua maneira. Explicar a mensagem de uma história é como impor uma leitura. Permanecer simples e comunicativo no prazer de contar uma história é suficiente para transmiti-la; deixa espaço para o ouvinte que será capaz de se conectar ainda melhor com ela, criando as suas próprias imagens mentais, de acordo com a sua própria personalidade, a sua própria sensibilidade, as suas emoções e experiência.

Duração

É idealmente um projeto a longo prazo: durante todo um ano letivo, se possível; ou durante alguns meses. Todas as semanas, num horário fixo: no mesmo dia, no mesmo lugar e à mesma hora. Um encontro regular entre os alunos e a prática da fala através dos contos e de outras histórias.


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Contar histórias na escola para dominar o discurso